Luiz Flávio Gomes

Doutor em Direito Penal pela Universidade Complutense de Madri e Mestre em Direito Penal pela Universidade de São Paulo. Diretor-presidente do Instituto Avante Brasil. Jurista e Professor de Direito Penal e de Processo Penal em vários cursos de pós-graduação no Brasil e no exterior. Foi Promotor de Justiça (1980 a 1983), Juiz de Direito (1983 a 1998) e Advogado (1999 a 2001). Estou no professorLFG.com.br

1 de outubro de 2013 14:19 - Atualizado em 1 de outubro de 2013 14:19

Hoje é dia do idoso: 5 são massacrados por hora

Nosso selvagerismo massacra 5 idosos por ora. Qual seria a raíz desse brutal atraso?

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 LUIZ FLÁVIO GOMES, jurista e coeditor do portal atualidades do direito.com.br. Estou no facebook.com/blogdolfg

Antes que você fique contorcendo de saudades, cantando “naquela mesa está faltando ele e a saudade dele está doendo em mim”, faça algo agora, já, imediatamente, de respeito a ele… Que tal? Nosso selvagerismo (que diminui a cada dia, mas continua intenso; não passamos ainda do grande meio-dia de Nietzsche) massacra 5 idosos por ora (Fabiana Maranhão, UOL). Qual seria a raíz desse brutal atraso? Muitas teorias.

Uma delas: Deus fez o Universo e o dispôs de maneira hierarquizada (ideias ambientadas no século XIV pelos teólogos da Universidade de Coimbra, para justificar a Monarquia Absoluta) (veja Marilena Chaui). As pessoas superiores possuem aptidões e poderes sobre as inferiores. Quem são os inferiores (consoante tal teoria)? As mulheres, as crianças, os escravos, os índios, os imigrantes… e os idosos. Isso se chama mandonismo, que é o pai do autoritarismo (a forma como tratamos “os inferiores”, massacrando-os como se fossem coisas). O Estatuto do Idoso está completando dez anos e a violência não diminuiu. Nenhuma lei a médio prazo reduz a criminalidade. O que está nos faltando? Ética. Durante boa parte do nosso dia praticamos ações automáticas: levantamos, escovamos os dentes, tomamos café, nos arrumamos, pegamos o carro, saímos para o trabalho, cumprimentamos as pessoas que encontramos etc. Automatismo puro. Ações introjetadas no nosso dia-a-dia. Não nos exigem decisões. Não questionam nossa liberdade de dizer sim ou não. Fazemos coisas porque nos ensinaram assim. Há outros momentos em que temos que tomar uma decisão: sim ou não! Aborto: Fazer ou não fazer? Propina para o guarda da esquina: Dar ou não dar? Se relacionar sexualmente com outra pessoa: Sim ou não? Autorizar a ortotanásia de um ente querido: Sim ou não? Idoso que julgamos inferior: Massacrar ou não massacrar? Nesses momentos entram a Ética e toda nossa história de vida (caráter, formação cultural, nível ético etc.). Nossas crenças, convicções, nosso preparo para a vida. Há instantes que nos exigem uma resposta, em questão de milésimos de segundos, e se não a temos bem formada, bem estruturada, começam os grandes equívocos da nossa vida (errante). Se é você que toma as suas decisões, não há como não concluir que é você o protagonista da sua vida, por ação ou omissão. E é bom mesmo que sejamos os protagonistas, pois do contrário passamos a ser apenas cúmplices ou comparsas das nossas vidas (conduzidas por outras pessoas). Não vale a pena viver a vida apenas como figurante. A imagem do mundo e da vida como um teatro é antiga (Savater). Chaplin dizia” A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos” (Charles Chaplin). Vivemos diariamente nossos personagens. Sempre estamos ou estão nos empurrando para o centro do palco. E aí vão aparecendo as tramas diárias (para muitas delas nem sequer estamos preparados, se não contamos com uma boa base ética). Nos exigindo decisões, como a de respeitar ou não respeitar todos os outros seres humanos, a natureza, os animais assim como o bom uso das tecnologias. Em todo instante é assim. Faço ou não faço? Massacro esse idoso ou não? Bato nas mulheres ou não? Sigo a vida certa ou a vida errada? Faço o certo ou o equivocado? Isso se chama ética, que orienta nossos comportamentos morais (abominando os imorais). A ética, assim, nos ensina a ser gente ou sub-gente. É uma questão de escolha. Porque a liberdade (até certa altura) só depende mesmo de um sim ou de um não (Octávio Paz). Que rumo estamos dando para nossas vidas?


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