Léo Rosa

Doutor e Mestre em Direito pela UFSC. Especialista em Administração de Empresas e em Economia. Professor da Unisul. Advogado, Psicólogo e Jornalista.

10 de agosto de 2012 19:35 - Atualizado em 10 de agosto de 2012 19:35

Política, mercado, multidão

Não estou seguro da hipótese que trarei ao leitor, ou que trago a mim mesmo. Creio que, em geral, as pessoas não se interessam mais por Política. Sim, eu sei que indivíduos esclarecidos sabem que Política é muito importante. Pessoas cultas estão informadas da relevância das relações políticas da Sociedade, mas delas não participam suficientemente,…

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Não estou seguro da hipótese que trarei ao leitor, ou que trago a mim mesmo. Creio que, em geral, as pessoas não se interessam mais por Política. Sim, eu sei que indivíduos esclarecidos sabem que Política é muito importante. Pessoas cultas estão informadas da relevância das relações políticas da Sociedade, mas delas não participam suficientemente, e até lhes tratam com desdém. É como se a esfera política fosse um mundo estranho, suspeito, para o qual eu tivesse que olhar de vez em quando e até dar um palpite sobre ele, mas não fosse o meu mundo.

Não quero achar isso certo ou errado. Penso que, talvez, estejamos superando a época em que a Política era um valor social. Assim: a castidade das moças foi vencida pela liberdade feminina; o fio do bigode não mais substitui o documento; honra tornou-se palavra pouco usada; de pátria nunca mais ouvi falar. República. O que significa República? Sei, pelos livros e pelos mais velhos, pois não foi coisa do meu tempo, que República era assunto cotidiano entre as elites do País. Os pensamentos mais elevados preocupavam-se com o conteúdo da Constituição.

Que código tem importância hoje, se algum a tem? Parece-me que o Código do Consumidor é o mais recorrido. Por que seria? Eu suponho que seja assim porque a Sociedade é de consumo. O consumo ocupou o ponto mais alto entre as atenções das gentes. A Política perdeu importância para o consumo, então, as normas das relações de consumo passaram a ser mais enfatizadas do que as regras da Política. O Cidadão, causa e expressão da República, está convertido em Consumidor, objeto e apanágio do Mercado.

Mercado é quantidade, não é ideia discutida. Mercado é produção em série para satisfazer multidões. Para tratar com multidões indiferenciadas, a comunicação é de massa, reducionista, pasteurizada. A forma de conversar com a massa não é a da propaganda, em que um conceito é exposto, suas qualidades são explicadas e espera-se a apreciação do interessado. O marketing é a ferramenta de relacionamento com a massa. Levantam-se as demandas do “povo”, fazem-se delas mercadorias e se as vendem às massas.

As massas talvez não saibam, mas compram a fabricação dos seus desejos. Seus desejos são apanhados por pesquisas, enlatados e devolvidos. As massas que os consomem consomem-se a si próprias, numa relação circular sem qualquer acréscimo de virtude pública. Colhem-se mediocridades, empacotam-se mediocridades, devolvem-se mediocridades. Não que a todos falte o que dizer. É que há poucos interessados em ouvir sobre a vida cívica. Não há interessados suficientes para eleger alguém, logo, não se fala nisso.

“O Legislativo está sendo invadido – para a alegria mórbida dos inimigos da liberdade – por humoristas decadentes, ex-jogadores de futebol, celebridades instantâneas e sambeiros que espancam suas mulheres” (M. A. Villa, Veja, 15set10, p.75). “Celebridades e quase celebridades invadem o horário eleitoral apostando que o eleitor já não suporta os políticos tradicionais” (F. Guedes, Istoé, 25ago10, p.58). A notoriedade desses sujeitos alcança a massa, que vota. Talvez esses sujeitos sejam nossos Legisladores.

No modo de vida de nossa época, as relações de comunicação são de massa, e a lógica é de mercado. A Política buscou a lógica de mercado para falar com a multidão. Candidatos são produtos à venda, o horário político é o momento do comercial. Os candidatos falarão o que o povo quer ouvir, ou não serão ouvidos. Não me parece preocupante, apenas, que a popularidade seja o agente eleitoral. Preocupa-me, ademais, que os Partidos brasileiros busquem e banquem a popularidade vazia e não cuidem de popularizar ideia alguma.


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