Léo Rosa

Doutor e Mestre em Direito pela UFSC. Especialista em Administração de Empresas e em Economia. Professor da Unisul. Advogado, Psicólogo e Jornalista.

3 de agosto de 2012 18:23 - Atualizado em 3 de agosto de 2012 18:23

Suspeição geral

As consequências são gravíssimas para o País. Primeiro, a questão individual. Vários estudos demonstram as sequelas psicológicas que transtornam pelo resto da vida os inocentes expostos. Depois, o aspecto institucional. Se todo mundo é corrupto, não havendo mais jeito, então também eu faço igual. Esvazia-se a credibilidade do próprio Estado. Por fim, a dimensão econômica.…

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As consequências são gravíssimas para o País. Primeiro, a questão individual. Vários estudos demonstram as sequelas psicológicas que transtornam pelo resto da vida os inocentes expostos. Depois, o aspecto institucional. Se todo mundo é corrupto, não havendo mais jeito, então também eu faço igual. Esvazia-se a credibilidade do próprio Estado. Por fim, a dimensão econômica. O custo de transação – que é uma espécie de ágio que se paga para fazer negócio quando há desconfiança – aumenta, seja por exigências de formalidades jurídicas, seja pelas próprias garantias pedidas. Além disso, a imagem de um país corrupto é sempre uma péssima recomendação para ser apresentada ao mundo.

Na verdade, lamentavelmente, nós temos um alarmante índice de corrupção entremeando os negócios da sociedade. Vários institutos internacionais de pesquisa atestam isso. Quero, todavia, ressaltar um aspecto que raramente se leva em conta quando se estuda o fenômeno. A corrupção, ademais de ser sistêmica – quase um modo de intermediar negócios quando se depende de um balcão governamental – é uma relação. Quero dizer, essa transação ilegal só se estabelece quando duas partes estão de acordo, e, aí, não há quem possa alegar inocência. Assim: alguém quer dinheiro para não me aplicar a multa justa, mas também eu ofereço suborno, para livrar-me da penalidade que me deveria ser aplicada.

Lembro isso porque há um reiterado discurso demagógico a apontar dedos para as autoridades, calando sobre a abrangência social generalizada que a coisa tem. Não é novidade o desgosto por pagar tributos, a esperteza para quebrar as regras, a licença para furar filas, a fotocópia que desrespeita direitos autorais, o pedido pela intermediação política, o mercado de votos. Não, não somos um pobre povo inocente. Muitos gostam de levar vantagem, lícita ou não. Mais gente do que se imagina, quando pode, mete com pouco remorso a mão onde não deve.  E, lamento, somos um destaque internacional, mesmo quando o ato de desonestidade é dirigido à coisa particular.

O texto esclarece as coisas: “Um estudo divulgado … pelo Centro de Pesquisa em Varejo, da Inglaterra, concluiu que o Brasil é o segundo país que mais perde dinheiro com pequenos furtos em lojas (…) Entre julho de 2009 e junho de 2010, as principais redes varejistas brasileiras registraram 3,9 bilhões de reais em perdas com esse tipo de crime, o equivalente a 1,64% do total do faturamento.” Então, o que eu dizia sobre a nossa maneira de pensar: “O problema é a noção, enraizada na mentalidade nacional, de que as instituições devem servir aos seus propósitos pessoais, não para organizar a vida em sociedade, no caso dos órgãos públicos, ou para prestar um serviço pago à população, no caso da iniciativa privada” (Veja, 27out10). Políticos? E o povo, também? Há que ter cuidado, ou acabamos em clima de suspeição geral.


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