21 de julho de 2012 21:33 - Atualizado em 21 de julho de 2012 21:33 Honestidade e humanidade Há quem entenda que as condições mais elevadas de nossos costumes sejam algo originalmente estranho ao humano; a condição humana em si seria bestial. Ou seja, o humano seria troglodita e, quando se superasse, ou superasse suas condições bestiais, perderia a sua humanidade original. Ora, humano é tudo o que o animal humano, mais ou… Crônicas Tweetar 221 Há quem entenda que as condições mais elevadas de nossos costumes sejam algo originalmente estranho ao humano; a condição humana em si seria bestial. Ou seja, o humano seria troglodita e, quando se superasse, ou superasse suas condições bestiais, perderia a sua humanidade original. Ora, humano é tudo o que o animal humano, mais ou menos civilizado, produz. Igualmente humanas, pois, são a barbaridade e a grandeza. Ao se observar o comportamento de animais, mais especificamente o dos primatas superiores, deve-se levar em conta o indivíduo, o grupo e o ambiente. Os grandes primatas têm várias características comuns. Uma delas é a cooperação. Em ambiente tranquilo, os membros de um bando ajudam-se reciprocamente, tanto para a caça quanto para dar combate a bandos adversários. Se, contudo, o ambiente fica hostil – se rareia a comida, por exemplo –, a disputa interna floresce e cada um busca as próprias vantagens. O ambiente propiciou a evolução humana; a evolução permitiu criar civilização; a civilização estabelece as condições de sobrevivência do humano. Assim: o primata humano, enquanto evoluía, foi criando civilização; a civilização criada foi enquadrando o primata humano que evoluía. Humano e civilização humana são condição e produção um do outro. Somente nos últimos milênios, contudo, o primata humano compreendeu que poderia administrar suas circunstâncias. E apenas muito recentemente erigiu valores e estabeleceu normas com pretensões de validade para o bando e para o total da espécie. A civilização, todavia, mesmo com seus valores e suas normas, não matou a natureza primitiva do humano. Simplesmente o cérebro teve, por evolução, uma parte específica que se desenvolveu. Essa parte cria cultura, relaciona-se com ela, aperfeiçoa-a. Um dos aperfeiçoamentos culturais mais importantes do nosso estágio de evolução e de civilização é a substituição da força bruta pessoal pela força das instituições. Quanto mais educada uma população, menos vale o indivíduo poderoso e mais importa o poder coletivo, institucional. Aí entra a questão da honestidade. Humanos em ambiente propício e em condições bem educadas formam uma cultura cooperativa. Uma cultura avançada de cooperação significa adesão a regras comuns por manifestação de vontade: eu reconheço a igualdade de condições de todos, não quero ser melhor nem lograr ninguém. Em coletividades mais primitivas, as regras são obedecidas por mero hábito ou por coação. Disso resulta que em sociedades bem educadas eu faço o que devo porque compreendo que é melhor para todos, o que me inclui. Faltando educação, falta civismo, impera a esperteza do humano egoísta, sempre pronto a enganar o próximo. A nossa cultura, em grande parte, foi numa direção ruim. Não valorizamos a cooperação fraterna ou a honestidade. Na busca de sempre levar vantagem, ainda que desonesta, construímos uma sociedade excludente (muitos pobres e ignorantes), patrimonialista (apropriação privada do bem público), pessoal (prática de favores), corrupta (paga por conveniências ilícitas), conservadora (mística, arredia a mudanças), autoritária (mandões privados e públicos) moralista (discurso sem prática), malandra (abusa da confiança alheia), religiosa (não compreende que religião é ideologia), conivente (não reage a nada disso). Nós nos fizemos esta sociedade de humanos brasileiros. Podemos criticar e reconduzir nossa história. Seremos brasileiros e humanos melhores.