Léo Rosa

Doutor e Mestre em Direito pela UFSC. Especialista em Administração de Empresas e em Economia. Professor da Unisul. Advogado, Psicólogo e Jornalista.

21 de maio de 2012 18:47 - Atualizado em 11 de fevereiro de 2013 13:16

Responsável por quem cativa

Está no mural do Facebook de Carla Bacila Sade: ‎”Tu julgarás a ti mesmo. É o mais difícil. É bem mais difícil julgar a si mesmo que julgar os outros. Se consegues julgar-te bem, és um verdadeiro sábio.” Ela acrescenta à própria publicação, como quem se explica: “Sim, continuo no Pequeno Príncipe”. Concordo: é mais fácil…

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Está no mural do Facebook de Carla Bacila Sade: ‎”Tu julgarás a ti mesmo. É o mais difícil. É bem mais difícil julgar a si mesmo que julgar os outros. Se consegues julgar-te bem, és um verdadeiro sábio.” Ela acrescenta à própria publicação, como quem se explica: “Sim, continuo no Pequeno Príncipe”. Concordo: é mais fácil julgar o próximo do que a si próprio. Penso, aliás, que para adquirir a condição de julgar-se é necessário muito exercício intelectual. Julgar-se pressupõe saber olhar-se, e, em se olhando, saber se ver. Não é nada fácil ver a si mesmo.

Suponho que se consiga alcançar algum tanto dessa percepção de si. Mas, cá pra nós, nisso jamais alguém será suficientemente neutro. Eu sempre serei suspeito na condição de julgador de mim mesmo, até porque terei que ser promotor, juiz e carrasco e, nalgum ponto do processo, acabo indulgente comigo.

Além da suspeição, a tarefa em si é bastante árdua: inclui, ou não acusar-se, ou absolver-se de suposta culpa, ou culpar-se. Sobre as “análises” incidem processos psicológicos profundos e complexos. Uma moral conservadora introjetada em mim me faz um eterno culpado. Mecanismos de defesa do ego absolvem com facilidade extrema as pessoas de caráter frouxo. E eu, no meio disso, por mais que queira, não tenho controle das incidências que me afetam.

Essas coisas me ocorreram ao ler o escrito de Carla. A leitura também me lembrou a máxima famosa do livro: “Tu te tornas eternamente responsável por quem cativas”. Provoco-a nessa questão: – Ruim, no livro, só a ideia de que alguém é responsável por quem cativa. Aliás, nem creio que alguém cative alguém. Carla contesta: – Entendo o cativar como fazer despertar um sentimento de carinho. Nunca fizeram isso contigo? (rsssss) Em italiano é addomesticare, aí a ideia não me agrada tanto. E acho legal que a gente não seja totalmente despreocupada com o sentimento do outro, não como responsabilidade, mas como humanidade, grátis assim.

Concordo com o carinho, com o preocupar-se com o outro, mas há mais para dissidiar: – Não é grátis. Seria ingenuidade crer nisso. Quem conquista e quem é conquistado, ambos logo mandam a conta da relação. Há carinho, todavia, dirigido ao outro feito objeto; objeto de desejo, porém, objeto. E do objeto se quer a posse, do objeto se deseja exclusividade, com o objeto se estabelece uma relação de poder. Carla, tudo isso é, pois, uma carência nossa, não é uma responsabilidade.

Surpreendo-me com Carla refluindo: – Ah não… mais um pra me “acusar” de ingenuidade crônica! hahahaha. E eu persisto no erro… burrice? Sinto-me meio culpado: vou ao mural de Carla, buscando entendê-la. Não quero dissipar os devaneios de uma menina, mas não vou fazer concessões a uma mulher. Leio-a bastante, concluo: – Burrice?, não creio. Penso que é uma declaração voluntária de ingenuidade, mas de uma mulher que, apenas, curte o charme dos dizeres ingênuos, sem, contudo, ter coisa alguma desse estado que é puro vazio d’alma. Atilada, inteligente, linda e competente, é o que mais me parece ser.

Carla (ainda) não me respondeu, mas deixou-me o addomesticare. Volto a Saint-Exupéry. O principezinho quer a amizade da raposa do deserto. A raposa lhe diz que só pode ser domesticada. Então, lamentavelmente, inicia-se um caso de domesticação. O principezinho, ademais, deixa-se picar por uma cobra para voltar à Rosa, de quem quer cuidar e a quem atribui responsabilidade por tê-lo cativado. Isso me parece intrometido, possessivo, doentio. Quero essas coisas, não. Gosto de trocar carinhos. Cuido e peço cuidados. Mas ninguém será responsável por mim; tampouco serei responsável por alguém. Simples – e livres – assim.


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